Tenho nó no peito como angina Um vazio bobo pela cabeça E os músculos incapazes de realizar ação alguma Angústia anual à sombra do aniversário!
Melhor seria ter uma fome descomunal, ou luxúria insaciável Assim saberia onde encontrar alívio Se o diabo me aparecesse em carne e osso Oferecendo qualquer coisa em troca de minh'alma Certamente, encontraria aí algum sossego. Mas não! Somente me resta a angústia, angústia na véspera dos meus anos.
De onde surge a melancolia? É dor pelo tempo que escorre? Pelos ponteiros, os segundos correm depressa Onipresente relógio! Carcereiro à porta do cotidiano! O melhor seria esquecer-me de dar corda. Fundar uma outra nação e abolir o tempo.
Para! Que adianta beber agora? Não há cachaça no mundo para livrar as amarras De toda sorte, é o melhor anestésico que tenho Sutil, dá às ideias algum espaço E me permito até sorrir.
Sossego. Busco na memória a certeza de que isso passa Nada é senão um resfriado da mente Um tipo de indisposição transitória, curto circuito de ideias Sei bem.. Em um ou dois dias esqueço-me e sigo sem pressa por mais um ano, aguardando o próximo lampejo de angústia ou lucidez.
Trabalhar nas minas, ser explorado explorando a terra, é uma loucura que só podemos imaginar. O trabalhador alienado, recebendo salário mínimo é pedra fundamental da pirâmide do capital. Terrível é a distribuição de riquezas, aqueles os quais mais sofrem, gastando suas vidas em um buraco escuro e úmido como animais, jamais verão senão mínima parte da imensa quantidade de dinheiro produzida. Sorte terão se, depois de vinte ou trinta anos, com o saúde selada por uma pneumoconiose, puderem se aposentar e seguir recebendo o salário de miséria - um muito obrigado pelos serviços prestados.
As minas são um dos melhores exemplos da exploração do homem pelo homem, sempre lembramos de Potosí, a cidade Boliviana foi a mais rica do mundo no século XVII, depois que roubaram toda a prata de suas estranhas para a metrópole espanhola, foi abandonada e hoje não passa de uma imensa e pobre favela, assombrada pelos fantasmas do passado. As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, é um livro necessário, demonstrando didaticamente o meio milênio de submissão do nosso continente.
A tristeza de hoje é acompanhar, como em um reality show mórbido encomendado pelo mídia, as notícias do experimento natural com os trinta e três mineiros de San José. Por algum tempo, ficará marcada em nossa retina as imagens das condições de sobrevivência no fundo da mina, e depois? Sem dúvida, é inimaginavelmente terrível ficar preso por meses naquelas condições; entretanto, não podemos esquecer que há séculos aprisionamos homens na mesma situação, o turno de trabalho é o grilhão e os detém por toda sua vida "útil" - laborativa. Pelo menos uma vez na história, preocupa-se com o estado mental dos trabalhadores, e eles são estimulados com atividade lúdicas para espantar a depressão. Passado algum tempo, tudo voltará a ser como era, esperamos o próximo desastre para nos horrorizar com imagens da realidade.
Mining for Gold - Cowboy Junkies
We are miners, hard rock miners To the shaft house we must go Pour your bottles on our shoulders We are marching to the slow
On the line boys, on the line boys Drill your holes and stand in line 'til the shift boss comes to tell you You must drill her out on top
Can't you feel the rock dust in your lungs? It will cut down a miner when he is still young Two years and the silicosis takes hold And I feel like I'm dying from mining for gold